sexta-feira, 26 junho , 2026

Falta-nos a invenção de uma moral pública

“Sem Deus, ficamos apenas com a moral humana. O resultado é o hiperindividualismo contemporâneo. Quando a moral é baseada apenas nos princípios humanos, esse humano se resume numa figura: eu!” (Darlyson Feitosa, Veja, 26abr17).
Desimporta-me a afirmação da existência de um deus único. Deus, redigido com D maiúsculo, lança um deus particular sobre toda a humanidade. Os deuses do mundo, que são muitos, são, então, arbitrariamente desconsiderados.
Diversas culturas empenharam-se em universalizar sua divindade. Na linhagem semita, os judeus o tentaram, os cristãos dominaram o Velho e o Novo Mundo. Os muçulmanos estão em desforço moral e físico para fazê-lo.
Deuses são violência real. Dos vários deuses advindos das diversas interpretações da Tradição Ocidental, todos foram impostos por impérios. Impérios mercantis, impérios governamentais, impérios abençoados por impérios de fés.
Isso “faz parte”, é História ao alcance de quem se interesse. Disso jamais resultou vida pacificada, igualdade entre pessoas e menos ainda entre gêneros, liberdade de qualquer ordem. A paz religiosa não é fraterna, é totalizante.
As religiões não deram, é fato, jeito no mundo. Não há um único resultado conferível. E não se deve olvidar que religiões só deixam de se impor por violência quando não dispõem de poder para fazê-lo; e estão à espreita para tentá-lo.
No exercício da violência, as religiões sempre foram minuciosas. Jogam os grandes jogos, controlam os sistemas educacionais, determinam os modos de organizar as famílias, produzem as condições individuais de interpretação do mundo.
Mas a afirmação inicial é verdadeira. Dado que os deuses andam enfraquecidos, estamos sentindo falta de alguma moral, e restamos compreendendo, com gosto e a contragosto, que a moral possível é a moral humana.
A questão com a qual a humanidade se depara e deve dar jeito é, mesmo, a da moral. Sem morais divinas, ficamos com a disponibilidade de morais humanas. Disponíveis se inventadas; se não as inventarmos, não as teremos.
Ora, se deuses sempre foram usados por poderosos como legitimadores de seus interesses, se donos de poder deram-se e dão-se como terceiros intervenientes da “legítima” moral divina, não aprendemos a agir por conta própria.
Vindos desse mau hábito de aceitar morais “deusificadas” conforme a interpretação de seus poderosos intermediários – morais “reveladas” – pomo-nos pasmos diante da necessidade de dar jeito numa moral convencionada.
No Brasil, não queremos política. Queremos, sem um deus que nos dê solução, uma solução deus ex machina: uma potência dramatúrgica que desça em cena com a missão de arbitrariamente resolver um impasse que esteja posto.
Nem à esquerda, nem à direita; ninguém é portador da solução. Não há heróis. A História mesma não produz heróis; heróis são produzidos pela História. Em geral, são farsas. Temos que nos fazer. Seja: fazer nossa moral pública.
Como o “maior país cristão do mundo” já deveríamos nos ter dado conta de que a divindade não nos ofereceu uma moral condizente com a expectativa do povo, religioso ou não. Somos corruptos até as entranhas. Sim, há exceções.
Mas não valem exceções. Hannah Arendt: em política não se conjuga o verbo na primeira pessoa do singular. Ou falamos no plural, ou cada um que se vire por própria conta. Na vida pública, resolver-se no singular é resumir-se ao eu.
Não cabe o privado como moral pública. Feitosa pede pela moral da sua divindade. Nosso tempo requer moral republicana, construída. Moral humana: a invenção da moral republicana é feita no cotidiano político, é coisa secular.
Não há revelação na construção da pátria. A modernidade inventou o indivíduo. O indivíduo deve subsistir. Eu sou eu, como indivíduo. Como moral pública, careço de ser nós. Feitosa, na peleja política, vai legitimar tua posição. Amém.

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